quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Hoje


Aquele seu brinquedo diário perdeu a graça de ser tão dócil e bem cuidado. Já se exauriram uma boneca de pano ou de plástico que muda a cor do cabelo, canta e faz comida invisível, e um carrinho de controle remoto lustrado de vermelho, cheio de antenas erguidas para o céu e o velho “vrum” dos motores imaginários.

Agora o que é sólido e intacto se tornou desnecessário. O estímulo está no movimento, na criação, na arte de pensar e refletir sobre o tempo perdido naquela infância bonita, revelada em fotos nem tanto rústicas. Uma bola, bambolê, batuque, bichos de estimação, tanques de guerra – nada disso trás um sorriso de criança surpresa. O momento exige raciocínio, maquiagem, roupas brilhantes, dinheiro para o lanche, tecnologia e paquera. O mundo é virtual e os jogos juvenis são bem mais interessantes na tela do computador.

Nós queremos poesia e sala de livros, discos excelsos, músicas de quem está fora de moda. Diferente deste século globalizado, nós estamos distantes do senso comum. O meu juízo de valor quase se iguala ao teu juízo de fato – e é tão bom. Deitados à beira do caminho, sob o sol sem fim, comentando o engodo dos nossos pais e o que lhes fazem crianças quase-cibernéticas como nós.

A juventude é uma escolha difícil de se engendrar quando a estrada não é toda em linha reta. A aventura é experimentar o prazer escusado que os produtos químicos nos trazem, é engolir a tolerância dos humanos, é um jogo parlamentar, é tostar florestas, é o beijo em vão das festas agitadas, é o desperdício e o desespero.

Ah, se quando crianças soubéssemos que a cidade seria tomada por poluição e violência, jamais teríamos deixado as esquinas vazias para jogar videogame dentro do quarto escuro.

Entrementes, nós que tomamos água quente misturada com erva, temos um mundo criativo para zelar e transformar em eternidade dos nossos sonhos infantis.

Adiante!

Nenhum comentário: