quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Você sou eu fora de mim

Você sou eu fora de mim.

E então me peguei pensando nessa frase totalmente elaborada.
O que instiga é o instante que nos prende numa cadeira dura para compreender a fundo o que um aglomerado de letras é capaz de transmitir.
Pode ser efeito da Síndrome do Pensamento Acelerado que, por razão fiel do mundo em que depositamos nossa fé, nos deixa tão ágeis para as coisas mais fáceis e comuns. Na mesma medida, paralisa aos poucos nossos membros e transforma nossa mente em algo muito são, ou melhor, vão. É como se fosse somente isso e isso bastasse para ser o bastante.
As pessoas se interessam mais em saber como anda a economia do país, se o momento é apropriado para investimentos no exterior, se a taxa de câmbio se neutralizará, se o preço da gasolina vai aumentar amanhã ou se o cartel dos postos se manterá e qual será a postura do governo em relação a isso, se o time de coração fez novas contratações, se o tempo passa e não é possível ver os ponteiros do relógio girarem... Pois bem, aí perdemos o real sentido de nossa existência. Porque não é mais primordial sabermos o nome da professora de nossos filhos, o título do filme que eles assistem, se a nossa esposa está sofrendo com cólicas, se a nossa mãe está se sentindo só, se os pássaros ainda cantam alegremente...

- Amor, você viu na televisão que o Presidente do Senado Federal...
- Pois então, isso é um absurdo e absurdos são como a água farta dos oceanos.

- Amor, hoje em dia como é que se diz ‘eu te amo’?
- Hum?!
- Ah, deixa pra lá. Ao trabalho!
- Avante!


Você sou eu fora de mim significa tudo que eu gostaria de ser se eu não fosse eu, ou não.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Um litro de leite

Hoje uma pessoa ligou aqui no meu serviço para pedir ajuda. É um daqueles tipos de Orfanatos que conseguem o número do seu telefone de uma forma surpreendente, perguntam seu nome e leêm o script para você se sentir totalmente conhecido, acolhido e envolvido com as crianças. Eles dizem, ainda, o nome e a idade da criança que se tornará seu "afilhado (a)" caso você se disponha a contribuir.
Apesar de ficar sentido e tocado, eu fico me questionando a respeito da integridade da Instituição e da falta de competência dos que já não são mais os pais daquelas pequenas e inocentes pessoas.
É somente um litro de leite. Não nos fará falta, burgueses quase que por definição, e ainda teremos o incostante momento de repensar nossas atitudes quanto ao mundo que vivemos, aos que nos pedem trabalho, dinheiro ou cigarro no meio da rua e, principalmente, quanto as coisas que realmente nos fazem ser seres humanos não apenas no apelido.

Sonhos e pernas

Música!

Tudo depende do nosso próprio exagero, do dia dia ímpar, do amor que floresce ou te quer esquecer para sempre, das estações do ano, da poesia, das letras e arranjos, da leveza, dos caminhos que escolhemos, de um passeio, de nossos corações enfim. No entanto, ele é um dos poucos capaz de, numa levada só, juntar todas as nossas afeições e formá-las em canções.
Os dois shows que eu fui foram, de fato, contagiantes. Apesar das lágrimas que não consegui retrair, meus olhos foram capazes de fitar as mais belas imagens de um homem que, sozinho, tem a malícia e a simplicidade de conduzir musicalmente espetáculos inesquecíveis. A primeira apresentação eu vi solitário, sentado no chão, bem de fronte ao palco. Não quis perder os mínimos detalhes refletidos em expressões bem humanas. Após cantar os grandes sucessos dos até então 4 álbuns lançados (Vanderly, No balanço do balaio, Naquele verbo agora e Vender Lee ao vivo), ele tentou terminar a apresentação. O público, por sua vez, insistiu para que ele continuasse e, ao provavelmente se ensurdecer com os meus gritos de "sonhos e pernas" - na minha opinião a música mais bonita -, ele a tocou como fechamento. Bem estilo tiéte, entrei no camarim e roubei uma foto com ele. Simpático e atencioso, moderadamente. Já na segunda apresentação que fui, recentemente, ele já havia lançado o dvd e o mais novo álbum (Pensei que fosse o céu). Quando pensei que ele viria com a sua banda completa, me surpreendi quando o vi sozinho em cima de um palco baixo. Dessa vez, eu estava muito bem acompanhado para apreciar aquele que eu sabia que seria um outro maravilhoso show. E não é que a cena se repetiu? Ainda bem que "sonhos e pernas", após novos gritos, também foi tocada.
Vander Lee, aquele que canta todos os sentimentos de uma pessoa que sabe amar.



"Sonhos e Pernas" é assim:

Olhe, não venha me mostrar o que você não vê, não venha me provar o que você não crê, não tente se enganar.
Pense, ninguém pode se dar o que só você tem, ninguém vai te dizer pra onde vai ou de onde vem. A estrada é pra caminhar!
Não perca o resto do tempo que ainda te resta, não perca tempo pensando que a vida não presta. Certas canções duram pouco, outras são eternas. Por que carros e aviões, se tens sonhos e pernas?
Lembre que sua consciência é o seu grande farol, que há meses que fazem chuva, semanas que fazem sol e dias em que tanto faz.
Faça! Você faz seu enredo, você é seu Jesus. Feche os olhos do medo e abra o templo da luz.
E tente um minuto de paz.


Eu gosto de voz e violão.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Ato falho

O ato mais urgente é aquele que pensamos em conduzir, mas deixamos somente no pensamento. Não deixe a sua frase se tornar a segunda e nem guarde a primeira bem no fundo da boca a fim de eliminar possíveis más impressões.
Qualquer dia, qualquer nota, qualquer noite meio morta pra passar o tempo, olhando o tempo fechar.
Qualquer mira, qualquer alvo, qualquer ato - um ato falho pra me precipitar daqui do alto.
Qualquer dança vã, qualquer saudade, qualquer atitude sã que invade e me explode nas veias abertas da minha cidade só.
Qualquer coisa que me digam será o mesmo que o silêncio.
Qualquer ansiedade distinta é o que me mantém mais por dentro das esquinas do meu pensamento.
Que o amanhã me seja o fim dos tempos.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Olhos

Eu estou aprendendo.
A liberdade é uma autonomia difícil de se encontrar em si e, com delicadeza, é muito mais complicado fazê-la florescer aos olhos dos outros. Mas, atualmente sei que estou mais próximo de abocanhá-la.
Não mais ajo como inocente - e olha que alguém inocente pode ser definido como criança de pouca idade - e agora começo a entender as duas versões. Mesmo que algumas idéias ainda pareçam loucas e pintadas com a mais sensível quimera, sinto que minhas decisões internas soam com muito mais firmeza e convicção do que quero para o futuro de hoje.
É até confortante refletir sobre coisas do mundo com a certeza de que ninguém me ouve, e mais, de que ninguém será tão capaz de me persuadir como acontecia naquela incocência citada no início. Eu defino meu caminho, escolho minhas canções, para me divertir escrevo minhas músicas, decoro o meu quarto, falo o que eu penso, compro os meus objetos de exposição, esfrego os meus beijos, abraço a quem eu quero e, com maior relevância, hoje sei olhar nos teus olhos sem deixar a timidez dominar meu coração.
Eu estou aprendendo.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Acrimônia

A falta de clareza nas decisões que tomamos diariamente sobretudo internamente corroem o coração que choraminga pelo ócio do mundo e acaba afetando as pessoas que estão em volta e meia o ser humano tenta ser tão capaz de entender os outros sem sequer compreender sua real essência e portanto se deixa levar pelo senso comum que ultimamente é mais comum do que na época dos antigos onde a percepção o interesse e a busca por novas teorias se faziam mais presentes a ponto de desmentir ou acrescentar as idéias passadas e de fato provocar novas verdades e ideologias as pessoas de certo modo são fracas e facilmente persuadidas hoje em dia é simples levar alguém a crer que um texto sem nexo pode fazer sentido para quem lê.


Como na sinopse de Acrimônia, de Guilherme Scalzilli.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

A lembrança

Rápidos oito anos já se passaram feito chuva pesada e destruidora. Eu me lembro muito bem: estávamos eu, meu irmão, minha avó e minha mãe sentados na mesa da sala jogando uma partida de buraco (naquele tempo minha avó adorava se distrair com as cartas e, para não deixá-la constantemente entediada, fazíamos esse agrado semanal). Meu avô, por sua vez, alcoólatra por definição e pouco companheiro, chegava do bar e se trancava em seu quarto para não ser interrompido enquanto assistia às suas novelas preferidas. Então, como sempre foi de costume, a porta dele estava bem fechada. Após o fim da primeira partida, minha avó foi chamá-lo para comer. Ao abrir a porta do quarto o viu caído no chão, imóvel, incosciente. Foi um desespero e uma correria imensa até a chegada do Corpo de Bombeiros. Depois de passar quase duas semanas no Hospital de Base respirando com ajuda de aparelhos, ele faleceu em um dia de data igual ao de hoje.
Ele sempre fez falta, embora não falemos muito na perda.
Hoje, com a lembrança mais singela e bonita, oramos com a mesma intensidade da primeira vez.
Eu me recordo das suas frases com alegria e lição de vida.
Eras tu, vovô, um homem íntegro e honesto como jamais pude conhecer igual.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Quando completei 19 anos


Deixe-me
Dar poucos passos e chegar longe,
Seguir por lados opostos e atravessar a mesma ponte,
Olhar sem reflexo qualquer horizonte.

Deixe-me
Rodeado de gente e solidão,
Apoiado e seguro em minhas próprias mãos,
Cuidar de mim sem ter que ter cuidado com a razão.

Deixa que me vejam sem rumo ou qualquer direção,
Com medo da luz essencial.
Que percebam meu mundo em discussão,
Que não me considerem primordial.

Deixa que me façam de boneco em construção
E que me quebrem com um toque qualquer.
Que me renove a cada manhã,
E seja sempre o que eu quiser.

Deixe-me
Chorar por cada sorriso compreendido,
Por toda festa de alguém apreendido.
Parecer um gênio ao ensinar o que é conhecido.

Deixe-me
Perder a lida a cada novo dia,
O caminho de volta de toda ida,
Ter a esperança de uma renovada vida.

Deixa que queiram me matar em uma outra confusão,
Que passem despercebidamente por mim,
Que não tenham o mínimo de atenção,
Ou que cheguem comigo ao mesmo fim.

Deixa que saibam do meu mau hábito de dizer não,
Que me odeiem por ser quem sou,
Que invejem a minha maior posição,
Ou que me amem no raro amor.

Sei bem que muito disso não condiz,
São só alguns enganos.
Não sei se algo disso é o que se diz,
São apenas frutos dos meus 19 anos.

Samba de roda


Para não tornar o meu dia de domingo tão tépido, resolvi me embriagar de samba. Já no final da tarde, com o sol baixo e a temperatura mais amena, fui até aquela roda de samba de uma das entrequadras da Asa Sul.

Ao chegar, observei os arredores e me prendi numa parte da calçada, de frente para a mesa na qual o pessoal desenvolvia a levada musical. Muito menos inibido do que das outras vezes, logo me aproximei e me coloquei a cantar.

Eu tenho intimidade, de fato, com os instrumentos de corda, tais como violão, banjo e cavaquinho. Em contra partida, ligeiramente me apossei de um chocalho que estava esquecido em cima da mesa amarela que comportava, ainda, copos e garrafas de cerveja. A essa altura, ao notarem que levava jeito para a coisa, me cederam uma cadeira e, finalmente, me incluí na roda.

Não me deixavam parar de cantar um minuto sequer, até porque os sambas tocados me enchiam de emoção e entusiasmo. Eram canções antigas, daquelas dignas de uma verdadeira reunião de sambistas. Relembramos compositores imortais, como Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Silas de Oliveira e companhia, além de alguns nomes atuais, como Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Grupo Fundo de Quintal, Jorge Aragão, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Arlindo Cruz...

O tempo passou como vendaval e, por fim, me senti feliz no final de semana. Estive tão a vontade que até puxei canções que, como Exaltação à Mangueira, de Enéas Brites da Silva e Aloísio Augusto da Costa, arrancaram aplausos fervorosos dos que estavam presentes e emocionaram de verdade.

O samba, estilo musical de origem africana, é a prova viva de que a alegria pode ser encontrada na esquina mais próxima, mesmo que só perdure por algumas horas imperceptíveis.

Que descomunal, até me perguntaram se eu era vocalista.
Quem foi que falou que eu não sou um moleque atrevido?!

E é lógico que samba é muito diferente de pagode.
Batuque é um privilégio.

sábado, 15 de setembro de 2007

E o que sinto, não sei dizer



Hoje eu acordei bem cedo, devorei o livro pendente - O Poder da Persuasão - e corri e olhei para o céu. Ainda é manhã, a mulher que faz pulsar meu coração está viajando, as folhas secas balançam nas árvores, pessoas dão início às suas caminhadas, pássaros cantam, o rapaz do gás atormenta, o telefone não pensa em tocar.
Hoje eu ó preciso retomar meu lado ufano.
E o que sinto, não sei dizer.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Olhar em foco



No ponto de ônibus todas as pessoas sentam no mesmo banco e olham para um só lado, aquele que dá sentido à via por onde passam os veículos. Entrando no ônibus, pessoas já estão sentadas. Dessa vez, em bancos duplos, não tão grandes como o anterior. O cobrador é sempre muito centrado. Não sei por quê, mas, esse tipo de profissional adora ficar contando o dinheiro, mesmo já sabendo quanto tem ali. De uma forma ou de outra, eles são organizados. As cédulas estão sempre em ordem e a posição do monte é contínua. Isso deve facilitar o trabalho.
Bom, ele te encara e mostra-se numa imagem nula e tu passas pela roleta! Nessa hora, algo acontece: todos focam o olhar para você. Pronto! Sua missão é procurar uma cadeira vaga, longe do sol. Não há nada livre do lado direito, onde a sombra repousa. O que fazer? Sentar com alguém?! Não, é melhor acomodar-se sozinho, do lado esquerdo, onde o sol, aos poucos, te derrete!

A viagem prossegue e mais pessoas entram por aquela mesma porta barulhenta e suja! Agora, os que adentram sofrem o mesmo jogo de olhar que você sofreu.
Pois bem, quase todos os bancos estão ocupados e, sem dúvida, com somente uma pessoa. É nessa hora que tudo parece mudar. Os indivíduos começam a sentar em dupla. Isso dói, machuca, é o fim! Além do mais, se bem repararmos, as mulheres são as que mais recebem um parceiro de lado, talvez, por homens preferirem sentar com pessoas do sexo oposto ou, até mesmo, quando mulheres, por acharem que as pessoas do sexo feminino transmitem mais "segurança". Algo mais é notável: mendigos, cegos, deficientes em geral, negros e pessoas com fone de ouvido são os últimos a estarem com mais alguém, quando não permanecem só. Ainda existem aqueles que preferem ficar em pé a dividir uma cadeira com um desconhecido!
Aquele local é fétido, pútrido.
Esse mesmo local é o transporte mais utilizado pelos brasileiros. Ali, amigos se encontram ao acaso, pessoas dividem suas dores, outros vendem doce e imploram por uma ajuda, alguns disfarçam e, incrivelmente, o cobrador é o mesmo boneco estático!
Está na hora de descer! Você pede licença ao companheiro de lado. Uns levantam e cedem passagem, outros somente recolhem a perna e ainda existem alguns que permanecem intocáveis. Essa é a segunda hora do "olhar em foco". Todas as pessoas que estão acomodadas do seu perímetro para trás, imediatamente, se viram para você.
Ao descer, ainda acontece outro fenômeno: os que permaneceram lá dentro esfregam o rosto na janela empoeirada só pra te visualizarem andar, já fora do automóvel.
Por fim, você respira a fumaça preta do escapamento do ônibus.
Pronto, mais um dia se foi e as coisas dentro do bonde popular são as mesmas.

Enfim, será que o individualismo é natural da raça humana?

O fato é que, para mim, o exemplo do transporte urbano é a maior prova de que nós, seres humanos, somos individualistas, secos, frios.
Sim, é raro alguém entrar e logo sentar-se ao lado de outro alguém, mesmo que os outros 30 assentos estejam livres!

Sim, eu uso fone de ouvido.

Novos horizontes


A pureza de um álbum de estilo musical indefinido é evidenciada no primoroso conjunto de canções de NOVOS HORIZONTES, mais novo disco da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii.

O destemor de gravar com a participação entusiasmada do público gera, aos ouvidos sentimentais e atentos, o valor mais distinto de uma canção: a visita às esquinas por pouco esquecidas e temidas do nosso coração. O grito, a euforia e a purificação da platéia são parte do conjunto de vozes que soam quase como hino da primeira a última faixa do disco.

Gravado em duas apresentações no Citibank Hall, em São Paulo, o show foi um misto de acústico com rock’n roll tipicamente brasileiro, com pitadas instrumentais de idéias caipiras e gingado sulista. Os músicos Fernando Aranha, Bernardo Fonseca, Gláucio Ayala, Pedro Augusto e Humberto Gessinger, além de Clara Gessinger e Carlos Maltz, participações especiais, fizeram daquele instante compartilhado em dois dias um singular retrato da história da banda.

O repertório, por sua vez, apresenta variações significativas no que se refere à composição e forma de apresentação das canções. As músicas antigas ecoaram como convite para novas atrações capazes de tocar aquelas mesmas esquinas citadas no início, até porque se fosse fácil achar o caminho das pedras, tantas pedras no caminho não seria ruim e, de fato, é bem possível chegar ao mesmo lugar usando caminhos diferentes. De toda sorte, as inéditas (Vertical; No meio de tudo, você; Luz; Cinza; Guantánamo; Quebra-cabeça; Não consigo odiar ninguém; Faz de conta e Coração blindado), não tão inéditas assim, tendo em vista que anteriormente já haviam sido disponibilizadas no site da banda, deram aos ouvintes as sensações internas mais simples e totalmente revestidas de poesia, instigaram o senso crítico e revelaram o que hoje em dia chamam de amor.

Ainda, para brindar os novos horizontes, o público poderá conferir as apresentações por intermédio da um DVD que contém entrevistas, making of e vídeos caseiros de algumas das músicas “quase inéditas”.

Contudo, como em um verso de “Duas noites no deserto”, só a mudança é permanente e, de repente, tudo está no seu lugar.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Hoje


Aquele seu brinquedo diário perdeu a graça de ser tão dócil e bem cuidado. Já se exauriram uma boneca de pano ou de plástico que muda a cor do cabelo, canta e faz comida invisível, e um carrinho de controle remoto lustrado de vermelho, cheio de antenas erguidas para o céu e o velho “vrum” dos motores imaginários.

Agora o que é sólido e intacto se tornou desnecessário. O estímulo está no movimento, na criação, na arte de pensar e refletir sobre o tempo perdido naquela infância bonita, revelada em fotos nem tanto rústicas. Uma bola, bambolê, batuque, bichos de estimação, tanques de guerra – nada disso trás um sorriso de criança surpresa. O momento exige raciocínio, maquiagem, roupas brilhantes, dinheiro para o lanche, tecnologia e paquera. O mundo é virtual e os jogos juvenis são bem mais interessantes na tela do computador.

Nós queremos poesia e sala de livros, discos excelsos, músicas de quem está fora de moda. Diferente deste século globalizado, nós estamos distantes do senso comum. O meu juízo de valor quase se iguala ao teu juízo de fato – e é tão bom. Deitados à beira do caminho, sob o sol sem fim, comentando o engodo dos nossos pais e o que lhes fazem crianças quase-cibernéticas como nós.

A juventude é uma escolha difícil de se engendrar quando a estrada não é toda em linha reta. A aventura é experimentar o prazer escusado que os produtos químicos nos trazem, é engolir a tolerância dos humanos, é um jogo parlamentar, é tostar florestas, é o beijo em vão das festas agitadas, é o desperdício e o desespero.

Ah, se quando crianças soubéssemos que a cidade seria tomada por poluição e violência, jamais teríamos deixado as esquinas vazias para jogar videogame dentro do quarto escuro.

Entrementes, nós que tomamos água quente misturada com erva, temos um mundo criativo para zelar e transformar em eternidade dos nossos sonhos infantis.

Adiante!