segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O silêncio e a solidão, ou vice-versa

Fim de folia e carnaval. Música baixa, mínima agitação, repouso aparente em nossas mãos suadas de medo. Chegou a hora do teu silêncio falar mais alto.
O segredo que carregamos por dentro, sempre oculto e misterioso, é o que causa essa insanidade imensa. Caminhar nem sempre é o que se deve fazer quando essa angústia de si próprio não se transformar em verdade e certeza. E então o silêncio fala por nós como um conselho matinal de pai e mãe... Mas agora é solidão. É como se você fosse um ser explicitamente taciturno e esse sentimento de consternação te tornasse tão você quanto não.
Como uma frase poeticamente insinuada: "Me sinto tão só e dizem que a solidão até que me cai bem". Na verdade ela faz bem sim. Porque "os dias que eu me vejo só são dias que eu me encontro mais". A solidão faz sentido no silêncio. Ela aflora e nos deixa em nós, nus e sãos.
Você, que gosta do silêncio dessas folhas de árvore se mexendo, da tua consciência pensando mais do que o ego, do teu coração pulsando com mais delicadeza e simplicidade, é só deixar sair a voz que brota desse estado de tranquilidade típico de quem está só.
Sim, o silêncio parece ser solidão, mas só quando em texto.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A pressa

Corremos tanto para alcançar um lugar bem no alto, mesmo que não seja no topo do lista de aprovação. A gente corre para chegar lá, não importa como e quantas pedras teremos que desviar do nosso caminho.

E aí vem sempre um que atrapalha, que quer o seu mal estampado no rosto pálido e depressivo. Ao lado existe aquele que te dá forças imensas mas que no fundo quer te ver no chão como o anterior. O pior é aquele que denominamos de inimigo sem saber que ele é mais do que esse simples apelido comum. Esse é o próprio medo interior resplandecendo dentro de nós como um vulcão em erupção contínua. E ele nos acompanha até o fim, impressionante. Por outro lado, em menor número mas não em menor intensidade, existem aqueles que te querem o bem e não medem esforços para te ver feliz e totalmente realizado, ainda que a linha de chegada esteja muito longe. Na verdade, o mais importante, dizem alguns por aí, é como e não aonde se vai.

Acontece que é difícil perceber que a pressa não é a necessidade intensa de atingir um objetivo. Essa urgência é pura opção de quem quer o que não tem. Um afã cósmico, universal, que te leva à precipitação.

Se quer uma dica, portanto, vá com calma. Só assim poderá notar que nem todas as flores têm espinhos e que é bonito um beija-flor repousante em sua janela que, quando se corre, sempre está vazia de ti.

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã.
Mais uma vez, eu sei.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Alma Nua

É com a alma nua que notamos o quão somos pouco.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

James Dean


Experimentar tudo na vida significa não abrir mão de falcatruas, goles de conhaque e sexo explícito. Os adolescentes gostam da escola porque é lá que perdem sua virgindade, conhecem os palavrões, as respostas feitas e o absenteísmo humano. E não tem jeito de ser diferente, mesmo que o rosto sincero mostre a pior mentira.

A folia é pura consequência da idade, da formação e do espírito. Ser jovem é muito mais alucinante do que um fumo na outra esquina da escola. As bandas de rock ou pagode e a rebeldia dos cabelos identificam o protótipo do instante agora. O futuro, já sabemos, é totalmente o inverso - bem adulto e vergonhoso quando das lembranças do passado.

E sempre gostamos de entender a homossexualidade ou a falta dela. É tão bonito e engraçado quando o nosso coleguinha se assume. Os garotos, por serem garotos, adoram quando as coleguinhas se beijam. No fim é quase tudo fingimento. Não que isso seja hipocrisia, mas a aventura da época é muito mais interessante que o próprio resultado.

Os pais são estranhos, de fato. Eles nunca entendem o que o jovem pensa. Que pena, não?! Se quando antes soubéssemos que eles são sábios e bilíngues não teríamos essa cabeça tão presa em ideais inúteis.

Hoje em dia, porém, os jovens querem o que é eletrônico e virtual. Aliás, o bom é que tudo um dia vira filme e música.

De carne e osso é tão mais aconchegante.

Que coisa adolescente, James Dean.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

O dia em que faremos contato

O ar frio o faz esbugalhar os olhos bem cedo, quase ainda de madrugada, mas o gosto da cama e o calor da coberta são maiores que a vontade de ir embora, saltar, correr para o mundo. Então, moderadamente se levanta, faz o sinal da cruz como forma de devoção e crença em algum Deus e coloca o pé direito no chão - sim, sempre o direito primeiro. O tempo lá fora condiz com a sua alma que mais parece gelar a cada minuto de repúdio. O estômago pede alimento, a boca refrescância, o medo licença e a solidão implora liberdade.

Ele, então mais esgaldado do que ontem, avança até a cozinha e abre a geladeira na ânsia de fitar um doce calmo, quieto à sua espera devoradora. Na realidade, a única coisa mais parecida é um copo cheio de cobertura de bolo que fora sobra do ano passado. A essa altura do desespero matinal, o pão é servido com um certo entusiasmo repentino.

O lençol ainda está amarrotado, as roupas continuam espalhadas no chão e ele se deita novamente, desta vez com a televisão ligada em baixo volume, como forma de descanso e incentivo ao sono seguinte. Num breve sonho as horas passam como nuvem em dia de sol forte e é o fim, o fim do sossego. As máquinas lá embaixo já fazem barulho, os carros correm na pista ao lado, o porteiro do edifício já limpa a grama com o rastelo e o canto dos pássaros já não é mais ouvido.

Nada de férias, nada de repouso e aconchego. O mundo capitalista não é uma boa noite de sono e vadiagem durante o dia. O sino da fábrica vai tocar e o chefe mal-humorado ainda espera o dia em que faremos contato.

O seu apartamento é quase um templo, vazio e sem sentido.




quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Podemos chamar de "amores febris"

Amores febris são como pássaros voando, sempre passam. Uma doença até saudável, que deve instigar o desejo de posse e faz brotar a autonomia mais severa do ser humano, aquela que te resiste ao outro e não a si próprio.

É um amor sentido através de um espelho, como se o reflexo do eu, de tanto ameaçar o ele/ela, voltasse com mais força e derrubasse quem sofre, sente e dói. É um amor daqueles sem cura, com o tipo de tratamento ainda em estudo no laboratório do coração, capaz de ferir o ego, camuflar a índole familiar. É loucura, enfim. E quem ama assim adora ser louco.

Tudo bem, talvez o meu exagero constante tenha feito desse amor o codinome "doença", mas quem se importa? O machucado é sempre latente e deixa a pele em carne viva, exposta aos arrepios sem dor. Quem ama assim parece confundir a verdadeira definição do dicionário (viva afeição que nos impele para o objeto dos nossos desejos; inclinação da alma e do coração; objeto da nossa afeição; paixão; afeto) com algum outro sentimento que eu, modesta e romanticamente, não sei dizer o nome.

A paz, nesse caso, é um momento de apito final... Tranquilidade, fim de jogo, liberdade e quem sabe ânimo para a próxima partida. Aliás, nem Freud como árbitro conseguiria pôr fim numa disputa assim, afinal, ninguém sai vencedor.



quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

A explicação do infinito

Eu sempre tenho idéias para escrever, mas o tempo as dissipa e o calor estremece a face oculta que tento colocar nessas linhas. Então, hoje pensei em repousar minhas asas de homem bom como quem descansa sem preocupação com o infinito.
A propósito, esse tal de infinito é uma coisa interessante. Nós estamos tão acostumados a dizer essa palavrinha que sequer buscamos razão, sentido e proporção real da própria relevância que ela nos causa.
E então o ano é novo, a vida é quase nova e o infinito ele mesmo, velho, irreparável, pouco conhecido e popular.


Nas ruas, os automóveis em ação
No céu, as estrelas para enfeitar
Nas praças, os jogos para distração
No chão, seus passos para caminhar.
A noite para escurecer
O meio termo para confundir
O outro dia para renascer
E os olhos sempre em busca de alguém para dividir.
Nos planetas, o mistério
Nos estudos, um porquê
Nas estações, o inverno
Nos ideiais, algum saber.
Os outros para a convivência
Os poetas para os livros
Nos erros, o teste da paciência
No corpo, todo o espírito.
Na varanda, as flores
Para eles, a piedade
O cartão-postal para a lembrança
Suas palavras, suas verdades.
O medo para a única coragem
A fé para a falta de crença
Nos dias, as 24 horas
Para o que acham igual, a sua diferença.
No mundo, o ser humano racional
Em cada motivo, uma razão
Para um crime, a velha idéia de confidencial
Para respirar, seu próprio coração.
Para os amores, alguma paixão
Para a eternidade, o infinito
E para o infinito, ele mesmo.